segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

Entre o sagrado e o profano: a banalização da stand up comedy

Diego Castro*
            Para dar início a esse post devo deixar claro que tanto o título quanto o texto foram embasados na obra do Professor Rodolfo Ferreira “Entre o sagrado e o profano: o lugar social do professor” (1999). Está obra apenas norteia o trabalho ao passo que me utilizo de alguns conceitos trabalhados nela para tentar traçar um panorama da atual conjuntura da stand up comedy no Brasil, ou seja, da banalização pela qual esse estilo vem passando. No mais, esse texto é fruto de minhas idéias intempestivas, arrogantes e assertivas de minha mente esquizofrênica.
            Para dar início a esse texto eu poderia começar com um belo chavão dizendo que a stand up comedy é um gênero de humor nascido nos Estados Unidos, no qual o comediante sobe ao palco de cara limpa e com textos de própria autoria. Mas não! Até porque tenho certeza de que até os microorganismos que dominam o imundo teclado do meu computador já ouviram essa definição, e com certeza eles também já ouviram alguém dizendo “meu sonho é ser um dia comediante stand up, assim como aquelas caras da TV!”.
            Desde os primórdios existe claramente o espaço qualitativamente diferente (sagrado) e o espaço qualitativamente comum (profano), segundo o historiador romeno Mircea Eliade existe ainda um espaço que seria o limiar, lugar onde esses dois mundos se comunicariam. Com a comédia stand up não é diferente, nela estão presentes o sagrado, o profano e o limiar, todos divididos por uma linha tênue, a qual corre o risco de não mais existir com o processo de banalização do gênero.
Acredito que podemos delimitar o espaço sagrado como o lugar ocupado pelos grandes humoristas, aqueles que conseguem sobreviver por meio do stand up. Já o espaço profano dominado por aqueles que buscam seu lugar ao sol. Por fim, o limiar seria as chances dadas pelos grandes aos medianos para tentar galgar seu espaço, mas sempre com muito receio por parte dos “deuses”.
É fato que em todas as áreas de atuação os atores sociais estão permanentemente estabelecendo diferenças através de escalas de valores, as quais apresentam sempre dois extremos: o possível e o impossível, o permitido e o proibido, o tocável e o intocável, a profissionalização e o amadorismo.
Acredito que atualmente a comédia de cara limpa da brecha a uma série de sonhos, contudo apresenta claramente o tamanho do degrau a ser vencido. Existe hoje um número imenso de iniciantes tentando vencer esse degrau em busca de 5, 10, 15 minutinhos, mas sempre pensando no seu solo de uma hora e vinte minutos. É a intensa busca pela saída daquilo que é próprio aos homens – 15 minutos em barzinhos – para aquilo que é além dos homens – o tão desejado solo –. O problema é quando o degrau é vencido sem preparo ou no tempo errado, pois assim o amadorismo é levado ao meio profissional.
            A verdade é que se tornar um “profissional” nesse meio está mais fácil do que parece. Possibilidade gerada devido a presença do stand up de “Pitanguinha do Norte” a “Bisnaguinha do Sul”. O Brasil sofre hoje o que me atrevo a denominar de “surto da comédia”. Isso seria algo maravilhoso se não fosse pelo fato de ocorrer, em muitos casos, um nivelamento por baixo. O país foi inicialmente tomado por esse surto graças ao youtube e, posteriormente, pelas disputas entre comediantes em programas da TV aberta. Essa massificação fruto da industria cultural poderá relegar a comédia stand up a banalização que muitos outros gêneros culturais já haviam sofrido ao caírem nas graças dos meios de comunicação de massa.
            Para alguns comediantes a stand up comedy já sofre com o processo de banalização. Vejamos uma declaração do comediante Marcelo Mansfield via Twitter:
Qualquer pessoa que faça qualquer coisa que lembre remotamente stand up comedy, se acha pronto pra subir no palco...ta na hora de peneirar” (Marcelo Mansfield, 25/01/2011)
            Já seu companheiro de palco o comediante Rafinha Bastos ironiza:
“Não, eu ñ acho q a stand-up comedy está banalizada, senhor pedreiro q faz stand-up comedy” (Rafinha Bastos, via Twitter. Dia 06/02/2011)
            A busca pela sagrada fama é o combustível para muitas utopias, sonhos que muitas vezes são catalisados pelo reducionismo do conceito de talento. Desacredito totalmente em tal conceito, me pautando na ideia de que o ser humano não nasce pré disposto a nada, a herança genética não é um fator determinante. Pois, desde o nascimento o processo de aprendizagem se dá através da interação com demais indivíduos. Ou seja, ninguém nasce cantor, escritor, comediante, etc.  
            As pessoas se tornam atores, cantores, escritores, atletas de alto rendimento, não porque nasceram para aquilo ou porque Deus quis, isso ocorre através do desenvolvimento de habilidades, as quais diferem devido ao estimulo recebido por cada um. E o espaço que cada pessoa ocupa é delimitado pelo esforço que cada um emprega nessa habilidade (claro que existem casos em que o dinheiro faz brotar pseudos habilidades).
Tenho certeza de que se listar aqui os nomes dos 10 primeiros comediantes que me vierem a cabeça os 10 tem um histórico de preparação antes de serem reconhecidos. O que me gera um tremendo espanto é saber das facilidades que a internet proporciona e ver pessoas despreparadas fazendo ou tentado fazer stand up. Acredito sim que a massificação da comédia stand up possa gerar no futuro o esgotamento do gênero. Contudo, creio mesmo é que a preguiça desmedida de alguns em buscar informação e aperfeiçoamento é que pode levar a total banalização
P.S. Felizmente ou infelizmente eu também faço parte desse mar de narcisos amadores que almejam um dia serem reconhecidos como comediantes stand up. Contudo, sei que me diferencio de muitos desde o momento que decidi que queria fazer isso, pois no lugar de pegar uma folha e começar a escrever piadas eu fui buscar aprender na teoria e na prática. Isto posto meus nobres segue abaixo uma série de links com dicas de livros para você que está iniciando no stand up, pois como disse o grande Malcom X: “O futuro pertence àqueles que se preparam hoje para ele”.

*Diego Castro: (23 anos) Historiador, professor, estudante de teatro, Clown de hospital (iniciante), e se Deus dar uma mãozinha, Comediante logo logo...
di.castro@live.com / http://twitter.com/#!/Dicastro_dc

Dicas:
LINS, léo. Notas de um comediante stand up. Curitiba: Editora Nossa cultura, 2009.
 Livro: Stand-Up Comedy: The Book (.doc), de Judy Carter (Traduzido)
 http://www.megaupload.com/pt/?d=P5922UAH
 Livro: Writing Comedy (.doc), de Gene Perret (Traduzido)
 
http://www.megaupload.com/pt/?d=9XRKI06C

Referências:
ELIADE, Mercea. O sagrado e o profano: a essência das religiões.  Lisboa: Livros do Brasil, (s. d.).
FERREIRA, Rodolfo. Entre o sagrado e o profano: O lugar social do professor. Rio de Janeiro: Quartet, 2ª Ed. 1999.
LINS, léo. Notas de um comediante stand up. Curitiba: Editora Nossa cultura, 2009.

2 comentários: